<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742</id><updated>2011-04-21T12:40:44.141-07:00</updated><title type='text'>[ Piscina de Bolso ]</title><subtitle type='html'>ÁGATON - "...e creio que me comportei como um perfeito ignorante em tudo quanto disse."





SÓCRATES - "E não obstante, caro Ágaton, pronunciaste uma bela oração!"</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>11</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-115688174688905447</id><published>2006-08-29T12:52:00.000-07:00</published><updated>2006-08-29T13:02:26.916-07:00</updated><title type='text'>No leito</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;E a carga tributária? O governo é como um índio apache que nos pega por trás e escapela; a gente fica ali se estrebuchando no chão, com o crânio em carne viva, enquanto ele uiva pra lua com o nosso couro cabeludo na mão, encharcado de sangue. É nesses momentos que me parece extremamente desgastante viver.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Sempre tive essa convicção de que minha passagem por aqui seria mesmo curta. Mas o que digo – passagem? Isso não diz nada. Não sou espiritualista; não há passagem. De forma alguma se trata de um elevador que tomamos e pelo qual se sobe (ou desce), como querem os que acreditam na alma. “Qual andar senhor?”, perguntaria o ascensorista. “Paraíso, meu bom. De preferência aquele que se vê pintado nas bíblias, com leite e mel jorrando aos magotes do chão.”
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Não. A morte, ma explicou um morto com quem sonhei uma vez: “Assim: é como se você acordasse na poltrona da sala à uma da manhã e a televisão estivesse fora do ar, com aquele chiado. É esse barulho infernal no ouvido da gente. Infernal é modo de dizer. O inferno mesmo não existe. Mas depois passa e só resta o escuro.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

Como disse, havia no meu íntimo essa convicção serena de que não viveria muito. Houve até alguns momentos na minha vida em que essa consciência me pesou muito, como uma pontada na boca do estômago. Foram nos instantes bissextos em que eu experimentei algo que se assemelhasse ao que chamam de felicidade. Defina felicidade. Na verdade ela não existe, mas às vezes a gente se aproxima dessa idéia que temos dela. Esses instantes sempre foram de uma alegria meio absurda para mim. Quando eu os vivenciava, alguma voz vinha de dentro e me perguntava se aquilo seria então o clímax, o auge de uma existência humana. E aí vinha a consciência de meu fim – e de que ele se daria em breve.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Era como estar descendo uma montanha russa – todos à minha volta num delírio coletivo – e se pôr a pensar na conta que teria de pagar na segunda-feira. “Enfim, de onde vou tirar o dinheiro?” E o brinquedo continuasse dando suas piruetas; os companheiros de viagem com um sorriso crispado no rosto, como o das aeromoças.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
E agora que estou aqui num leito de um hospital, lendo o jornal que fala que a carga tributária deve aumentar 5% no próximo ano, a idéia de que vou morrer me soa interessante. A morte não deixa de ser uma forma justificável de se sonegar imposto. Isso já basta para legitimá-la, não parece?
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O médico vem a meu quarto vez ou outra. Ele se porta como aqueles malabaristas de semáforo que desempenham sua performance no prazo exíguo de alguns segundos para depois voltarem à sua realidade banal, tentando amealhar uns trocados dos motoristas e mesmo xingando algum que não aprecie sua arte.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
“Vê-se logo que o senhor está em boa disposição! Todo pimpão lendo aí o seu jornal. Está certo, está certo. Logo vai estar pronto para a outra cirurgia. Não tarda, hein? Precisamos eliminar esse tumor de uma vez...tem sentido dores?” “O senhor leu as manchetes hoje? O governo não cansa de descer o vergalhão no povo, doutor. É imposto que não acaba mais.” O parvo me fita sem entender. Dá uma olhada confidente pra enfermeira e retoma sua encenação. “Vamos, nada de se preocupar com isso agora. Vou mandar trocar esses curativos do senhor.” E sai assobiando. Foi assistir a um desses musicais no estilo Broadway e agora as músicas não lhe saem da cabeça. Foi ele mesmo quem me contou. Levou a esposa, os filhos adolescentes, a sogra... Vai, filisteu, vai assobiar em outra freguesia e me deixa sozinho aqui no meu quarto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;


*******

 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;




Ontem Marta veio me visitar. Estamos juntos há um tempo. Mas agora mesmo não consigo me lembrar desde quando. Só recordo como a gente se conheceu.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Malgrado o potencial que isso tenha para ser um roteiro de filme com a Meg Ryan, as coisas decorreram mais ou menos da seguinte forma: na seção de cosméticos eu me contorcia na difícil escolha de um shampoo. Existe toda uma panacéia ao alcance da mão de quem tem caspas, cabelos oleosos, cabelos com ponta dupla, etc., etc... O que torna a escolha algo definitivamente extenuante. Tinha até um rótulo que dizia: “para cabelos rebeldes e que não se assentam.”
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Eu pensei (e disse) comigo mesmo que um cabelo desses precisava de um psicólogo, não de um shampoo. Marta havia escutado e deu uma risada. Eu fiquei assustado, na verdade. Aquele processo de escolha tomava tanto da minha atenção que eu nem percebera sua presença ali ao lado, também optando por uma das inúmeras marcas (ela acabou escolhendo aquela recomendada para “cabelos rebeldes”).
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Olhei para o lado com o automatismo de quem sabe que só as feias acham graça das suas piadas. Na verdade, o problema não é das feias, mas das mulheres bonitas, que não têm senso de humor. As beldades têm essa percepção de que tudo à sua volta é muito grave. Por quê? Não deixa de ser admirável: há até uma circunspeção monástica. É como se sua beleza –  transfiguração de uma força divina – exigisse que nós laicos as contemplássemos em profundo silêncio. Eis a vedete; silêncio no recinto, senhores!
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
E acontece que Marta era definitivamente bonita. Tinha uma nuca egípcia. Sim, a nuca; acho uma parte intraduzível da mulher. E parecia uma efígie daquelas pinturas egípcias: projetando-se para o alto, fina e elegante. E era um corpo que ria. Vibrava timidamente ainda quando olhei pra ele, o corpo, e para ela, Marta. Sim, faço essa distinção porque antes dela havia aquele ser desconhecido e belo.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
E aí, numa hora dessas, a gente sempre se trai. Empolgado com a qualidade da minha platéia, acabei emendando uma patifaria: “Não é? Um cabelo desses não precisa de laquê, precisa de Lacan.” Mas ela riu ainda mais! Talvez porque ali ela já me amasse desse amor maternal, que a tudo perdoa. Sim, por que não? A esse tipo de amor a idéia do objeto amado já basta para que se ponha a funcionar. Por que num átimo de tempo já não estaria amando aquele ser completamente desconhecido? Ela mesmo me confessou um dia que, ao me ver de longe, teve essa sensação de que meu vulto se projetava da prateleira de shampoos como uma matéria negra e refratária. Empedernido que sempre fui, eu brincava dizendo que ela tinha uma queda pelo mal gosto. “Essa coisa de se apaixonar por um vulto na seção de cosméticos...”
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Nas prateleiras de frios apresentamo-nos, nas de bebidas ela já conhecia todo o potencial da minha amargura e no caixa eu percebi assustado que sentia algo realmente grave por ela, algo que não experimentara nunca na minha vida e que ia para além da estupefação ingênua e inicial por sua beleza. Um mês depois ela propôs de morarmos juntos.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Daí a história perde um pouco de sua particularidade e se dilui no senso comum que é o cotidiano de todas as relações. O hábito, as discussões, a conta de energia. Mas anoto isso só para sintetizar a coisa toda. Porque realmente houve momentos únicos, nos quais, talvez, a idéia de felicidade tenha me sido tão familiar como jamais fora.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Eu abria a janela que dava pra avenida e ficava olhando os carros lá embaixo, as pessoas passando. O barulho subia em ondas até o andar onde morávamos, mas chegava quase sem força. E a incapacidade daquela sonoridade imbecil em me abarcar – isso me deixava eufórico. Sentia-me apartado do resto da humanidade. Escarrava e cuspia, cheio de prazer. Cuspi muito e nisso se via toda minha alegria.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
No dia em que deixei o apartamento para me internar no hospital, quando a doença já dava mostras de sua progressão voraz e de que seria inútil tentar domá-la sem me internar, andei mexendo nas velharias da dispensa. Estava procurando um livro velho para levar pro hospital, para matar o tempo. Acabei achando o diário de Marta. Digo “o diário”, mas nem sabia que ela mantinha um. Por certo que ela nunca me falou dele por receio das piadas que eu faria. “Um diário, Marta?”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

Lembro-me de um trecho mais ou menos assim: “A idéia de que ele possa morrer é angustiante. Não consigo aceitá-la, nem quero. Mas o que mais me dói é que isso me parece inevitável. Apesar de meu amor por ele, esse fatalismo, essa entrega a pensamentos ruins sempre toma conta das minhas idéias. Olho pra ele e imagino-o amarelo, num caixão. Terrível. E tudo de excepcional que ele me disse? É só o que fico pensando: aquele corpo inerte não vai me dizer mais nada e viver só com a memória dele e do que me disse não serão suficientes...”
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
****
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Estive afastado uns dias desse meu caderno de anotações. Tive uma crise de verter sangue, uma dor...como poderia defini-la? Realmente, o momento da dor, em sim, é um universo fechado, que se basta, infenso a qualquer qualificação. Fico pensando se seria justo com o ser que fui naquele momento tentar agora qualificar o que senti. Não, não me parece nada sincero; até porque eu e ele somos a mesma pessoa – separados por algumas horas e miligramas de morfina, mas ainda sim um único ser. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

Basta saber que a dor, no seu momento mais agudo, fez-me vomitar o almoço e o sangue. Segundo a enfermeira, isso decorria das doses de morfina, sem as quais, todavia, eu não poderia suportar uma dor ainda mais aguda – a que se alastrava surdamente no meu corpo por conta da metástase. E a solução seria aplicar mais da droga, o que acarretaria reveses ainda maiores, fazendo o meu sofrimento aumentar continuamente – até o dia em que meu corpo não agüentasse e falisse.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Mas o que me tomou tempo também foi que comecei a ler um livro que Marta me trouxera. É uma biografia de Tchekhov bem interessante, até porque vem seguida de uma série de contos dele que nunca havia lido. Sinceramente, a vida de um escritor não me interessa tanto assim. Não acho que a vivência explique o essencial da obra do sujeito. A obra é uma outra vida, intimamente atada, sim, à “real”, mas não deixa de ser um lugar autônomo, com leis próprias.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Condicionado pelo meu atual estado? Talvez: uma das coisas que achei mais interessante no livro é o relato da morte do escritor, num hotel de Badenweiler, na Alemanha. A sua situação se complica durante a madrugada (era dia 03 de julho, 1904). Daí que a sua esposa, Olga Knipper, manda chamar o médico. Havia um estudante russo no hotel – ele se encarregou disso. Chegado o médico, Tchekhov, respirando com dificuldade, lhe pergunta: “Morte?” Doutor Schwöhrer tenta amenizar, que longe disso; mas pede ao estudante que busque oxigênio. Ao que o escritor intervém, afirmando que seria inútil – antes que chegasse, ele estaria morto.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Resignado, Schwöhrer pede que tragam, então, uma garrafa de champanhe. (Aqui o biógrafo faz o relato sem se demorar em explicações. Mas eu fiquei me perguntando o porquê desse champanhe: efeito profilático? mera contemporização, até que a morte atingisse Tchekhov? Na falta de explicação, fico com a segunda hipótese.) Ele sorveu, abriu um sorriso para a esposa e disse que há muito não bebia champanhe.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Começou então a ter delírios nos quais via um marinheiro. “O marinheiro foi embora?” A morte foi contemporânea à guerra russo-japonesa, o que talvez explicasse essa imagem abrupta, emergindo do seu sub-consciente. O marinheiro recalcitrou mais alguns momentos na mente de Tchekhov; ele continuou perguntando pelo combatente até que se acalmou um instante. Falou: “Estou morrendo.” E morreu.

Tchekhov morreu como num conto de Tchekhov. Nem mais, nem menos. Sóbrio, sem rompantes, e ainda assim verdadeiramente comovente. Uma morte estética, de acordo com o mundo que criara para si na literatura. “Ich sterbe”: “estou morrendo”, ele disse em alemão, apesar de falar rasteiramente a língua, como afirma o biógrafo. E justamente o que me admira é que não se trata de um heroísmo dele, encarando o fato sem amarras. Pareceu-me antes uma resignação diante de algo inelutável. Ponto.
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Pelo menos me apetece mais pensar dessa maneira. Posso eu editar, brincar com o fim dele? Nada me impede. Como disse, a obra me interessa mais. E encaixar a cena de sua morte como um seu derradeiro conto, seu canto do cisne, me soa agradável. O próprio relato do autor do livro parece ser um apanhado cubista que tenta condensar os testemunhos das três pessoas que presenciaram os momentos finais de Tchekhov: Olga Knipper, o estudante russo, que se chamava Lev Rabeneck e o doutor Schwöhrer. Onde, a verdade indivisível da cena, então?
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Olga Knipper, num artigo de 1908, dá cores fortes ao sofrimento do marido. Ele agonizava e, “pela primeira vez na vida, pediu a presença de um médico...” (Ele mesmo se formara em medicina, embora não exercesse a profissão.) Mas nada menciona do fantasma do marinheiro, por exemplo (embora o fato tenha sido relatado por um correspondente de um jornal russo que estava no hotel e privava da intimidade de Olga). Em outro relato, de 1922, ela acrescenta um detalhe até então omitido (e que, em verdade, nada acresce à história; a meu ver, até destoa): após o falecimento do marido, “o terrível silêncio da noite só foi perturbado por uma grande mariposa que entrou no quarto como num redemoinho, debateu-se aflita contra as lâmpadas elétricas e voou às tontas pelo aposento.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;


Na memória de Olga, a cena final de Tchekhov, passados 14 anos, já aparecia tingida desse detalhe tão banal. No momento da morte, era um quadro fechado em si. Depois de um tempo,  ela se viu na necessidade de completá-lo com a mariposa. Ou antes, a figura de seu marido já se fragmentava na sua memória, perdia sua importância, permitindo emergir o inseto?
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Marta chegou. Eu estava entretido com as minhas anotações, tentando rabiscar um garatujo “concretista”. TCH...MARI..EKH...CHK. POSA...OV...IP
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Coincidência ela ter chegado naquele momento, pois que eu me lembrava daquela passagem do seu diário: “É só o que fico pensando: aquele corpo inerte não vai me dizer mais nada e viver só com a memória dele e do que me disse não serão suficientes...”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Sim, era uma mulher lúcida Marta. Sabia tanto quanto eu que adiante (quando?) minha imagem iria começar a se esfumaçar nas lembranças dela. Era algo inapelável; o hábito, o cotidiano, o outro homem que fosse entrar na sua vida: tudo, na sua voragem, ia arrastar a lembrança de mim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

Isso ainda lhe doía porque era um processo futuro, desconhecido a ela. Como esquecer-me agora, ainda que eu fosse uma matéria indefinida, digna de pena, em cima de um leito de hospital? Havia uma presença canhestra, mas ainda havia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

Mas depois, depois que eu morresse, a idéia de que fosse me esquecendo, eu sei, iria se lhe tornar familiar, consoladora até. O tempo ia passar; vai passar, vai passar, minha filha, não duvide disso. Esquecer não vai ser uma traição, mas decorrência natural das coisas. A prima vai ligar, dizer que muito tempo já se passou, que é preciso sair de novo, conhecer novas pessoas, conhecer novos insetos, que no mundo pululam mariposos, não queria conhecê-los?, à noite eles são ávidos de luz, transpõem às janelas da casa e do quarto, batem nas lâmpadas, por certo, embriagados que estão da escuridão que trazem da noite, mas são ótimos em velar o morto para depois enterrá-lo de vez na memória da viúva...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;


***
 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
- Marta, o que acha das mariposas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

- Mas você! Seu senso de humor me aflige, tem horas. Vai, querido, a moça quer tirar sua roupa. Colabore. O doutor já está na sala de cirurgia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

- Mas a pergunta é no duro... coisa seriíssima. Não lhe agradam esse bichos? São meio agourentos, é verdade, mas têm seu encanto. Um encanto barroco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;

- Ai, amor... – com a voz chorosa –... depois da operação a gente fala dos bichos que você quiser. Agora fica calmo....calminho. Vai dar tudo certo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Claro, claro, vai dar... Marta, me desculpa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-115688174688905447?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115688174688905447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115688174688905447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/08/no-leito.html' title='No leito'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-115540861580768896</id><published>2006-08-12T11:40:00.002-07:00</published><updated>2006-08-20T12:10:23.703-07:00</updated><title type='text'>Dois Reais</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Era a primeira vez que o capiau andava de avião. Nem era assim um avião com “ão”; estava mais para um aviãozinho – monomotor, capenga. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Pois o aviãozinho, com o matuto dentro, pegou uma tempestade digna de Lusíadas. Um dos passageiros foi à cabine pra se informar da situação, e voltou cabisbaixo para o lado do nosso homem: “Parece que o avião vai cair.” &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O matuto era um pronto e afirmou: “Por mim, não é meu mesmo.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
************************ &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Já que se está aqui em cima, embarque-se nessa: era um monomotor que carregava o candidato a deputado, seus assessores e um padre. Pode parecer folclórico um padre nesse contexto mas é fato; aconteceu na terra do meu pai. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Pois bem, pegaram também uma borrasca dos infernos. O candidato, cheio de pecados, antevendo a morte, se descabelava e os assessores eram as próprias Mães da Praça de Maio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O padre estava sério, compenetrado. Um movimento sibilino dos lábios denotava que ele rezava. Quem visse a cena diria que o padre estava convicto de que nada de grave aconteceria. E, a cada estocada que o vento dava na fuselagem do avião, ele apertava mais o terço nas mãozinhas suadas. Mas não fazia daquilo uma ópera. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O político mandou um de seus valetes ir à cabine para saber em que pé estavam. O sujeito voltou desolado: “Não tem jeito, o avião vai cair.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Irado, o religioso despertou de sua fé de tele-prompter : “Homem, não fala uma desgraça dessas! Cala essa boca, imbecil!” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
******************* &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
De um cego, conhecido de meu pai, após eu tê-lo ajudado a atravessar a avenida: “Então você é filho do Barreto? Parece mesmo...” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
******************* &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Os íntimos me chamam de Vina, mas os íntimos de verdade me chamam de sovina. Fazer o quê? A culpa é da genética. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
É que eu estava com esse amigo à porta da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Segundo ele, eu tinha que conhecer uma pintura no teto da igreja, feita pelo Aleijadinho, pois, segundo ele, “aquilo era cinema antes de inventarem o cinema.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Ok. O diabo era que eles cobravam dois reais pra entrar. Aquilo despertou minha pão-duragem atávica e eu tentei argumentar com meu amigo que se tratava de uma extorsão. “A igreja é do povo, certo? Não existe aquela piada que pergunta por que o cachorro entrou na igreja? Porque a porta estava aberta.” De mais a mais, era um absurdo cobrar a entrada só porque de igreja ela passara ao status de museu. E completei: “Dois reais pra cinema até que não é caro, mas pra conhecer uma capela é um flagelo. Não pago.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Ao que ele emenda, irônico: “Não entrarei, Senhor, no templo, seu frontispício me basta.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Uns anos depois fui descobrir numa antologia do Drummond esses versos que ele fizera para a mesma Igreja de São Francisco de Assis, no poema “Estampas da Vila Rica”. Ao me deparar com aquele verso, a lembrança do incidente reverberou na minha memória como uma dor de dente. Inevitavelmente comecei a rir. E tomado de susto eu percebi a real dimensão do meu amigo que, por essas e outras, estava fadado a ser um homem de brilho. Esse tipo de tirada só as têm os homens de gênio, pois sim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Num futuro próximo meu amigo pega uma dessas cátedras vetustas; vai virar uma vedete da inteligentsia brasileira e eu vou estar mendigando dois reais na escadaria das igrejas pra conhecê-las por dentro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
****************** &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
No posto de gasolina um sujeito tentava relatar ao amigo suas últimas leituras: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
- Estava lendo esse livro do Jung.... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
- O Deleuze refuta a psicanálise. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Silêncio dramático. O leitor de Jung ficou chocado com a intervenção do leitor deleuziano, do nada. Mas resolveu continuar: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
- Nesse livro – “O homem e os símbolos” –, o Jung retoma algumas coisas do Freud que.... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
- O Deleuze também desanca o Freud. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Aí foi a gota d’água: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
- Ah, mas esse Deleuze fala mal de todo mundo, porra! Assim não dá jeito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
***************** &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Uma vez eu estava num bar em São Paulo com um amigo. Era domingo à tarde e a nossa grande preocupação existencial era não perder a sessão de cinema à noite. De repente somos abordados por um gaiato de macacão (um sujeito de macacão por si só já é um quadro bastante pitoresco).
Ele veio com uns panfletos e começou um discursinho cacete: “Venham assistir a ‘Pluft, o fantasminha’, um espetáculo super divertido, etc., etc.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Para entrar na onda falei pro sujeito: “Olha, meu amigo aqui entende de teatro. Se a peça for ruim, no final ele vai lá reclamar pra você”. “Ah, entende? Então você sabe de quem é a peça, né?” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O entendido bebeu um gole de cerveja, lambeu a espuma e fez uma boquinha de menos-valia: “Sei, sei... é da Maria Clara Machado”. E suspirou como um anjo caído tendo de lidar com coisas terrenas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Isso bastou pro chato ficar grudado à nossa mesa por uma boa meia-hora. Começou a falar da peça e, lá pelas tantas, quando soube que eu era de Goiás, seus olhinhos brilharam e ele se aproximou de mim como uma vítima de diáspora que reencontrasse um conterrâneo no estrangeiro – e falou uma das coisas mais parnasianas que já ouvi na minha vida: “Pois, quando eu nasci, vim de Goiás pra São Paulo numa caixa de sapato.” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-115540861580768896?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115540861580768896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115540861580768896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/08/dois-reais_115540861580768896.html' title='Dois Reais'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-115473477382601670</id><published>2006-08-04T16:31:00.000-07:00</published><updated>2006-08-06T10:03:42.486-07:00</updated><title type='text'>Na cantina</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Descendo pela escada vi um espaço amplo - inimaginável para quem passa pela fachada - num tom amarelecido, de piso de madeira e preenchido por mesas pontiagudas, feitas de uma madeira escura. O pé-direito era baixo, modesto (como disse, tratava-se de um subsolo).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Em frente à escada da entrada havia um balcão. Sobre ele os cotovelos do dono, seu Guido, de 86 anos, que apoiava à palma das mãos o rosto. A partir do balcão o restaurante se projetava mais em comprimento do que em largura, mas ainda assim mantendo uma harmonia que dava ao espaço certa dignidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Na verdade, se alguém lhe dissesse que funcionava ali há 48 anos, o visitante incauto, construindo para si de antemão um universo particular e que recendesse a antiquário, ficaria um tanto desapontado ao entrar lá. A impressão é de que uma, ou, quem sabe, sucessivas reformas, havia desfigurado a decoração original. Aquele tom desbotado remetia a algum período intermediário entre os anos 70 e 80; nada mais imemorial do que isso, por certo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O que esmoreceria também a curiosidade fetichista desse visitante era o fato de nada ali parecer com uma cantina na sua concepção tradicional - ou ao menos com a nossa visão padronizada do que deveria ser uma cantina: salames à mostra, um certo verde aveludado nas poltronas, um brasão da família, a indefectível bandeira da Itália, uma porta esguia que insinuasse a entrada para uma adega subterrânea, etc., etc.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Mas é certo que havia nas paredes pôsteres de Verona, do Coliseu, a fachada do teatro Scala, em Milão, uma vista aérea de Rimini (cidade onde, eu soubera, nascera Fellini). Existe sempre nessas imagens algo de melancólico; é inevitável. Elas mostram o lado mais doce e ingênuo da Indústria Cultural. Não há ali qualquer carga retórica que queira nos convencer de um hiper-realismo ou algo assim, mas uma mera docilidade kitsch.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O garçom que nos atendia era um desses sujeitos cujo destino foi traçado bem previamente, quando um traço mais macambúzio atrelado às parcas perspectivas de vida definiram que ele seria garçom de cantina italiana dos seus vinte e poucos anos até o dia de sua morte. O olhar distante, mirando um ponto-de-fuga imaginário que, localizei, estava acima do meu ombro esquerdo quando ele falava comigo, lembrava aqueles sujeitos surrados pela vida. Se tentasse a sorte como ator poderia fazer o papel do marido traído passivo, lasso, num programa de comédia pastelão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Numa mesa diagonal à minha estavam dois homens de meia idade. Um deles usava um curativo no pescoço cuja atadura estava se soltando, talvez por causa do calor que fazia. Havia acabado de sair da hemodiálise e fumava extenuado. O outro tinha um rosto quadrado, macilento, os olhos um pouco repuxados: lembrava uma serpente. Ou essa imagem ficou na minha cabeça por conta do que ele lançava à cara do moribundo? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;“Sabe, Lúcio, eu também ainda vou levar uma vida como a sua, viu?! Vou tirar dela a melhor parte e o resto: babau. Você conseguiu levar tudo nessa base, né? Deixou-me só com o pai e a mãe - aquele inferno diário, aquelas brigas sem fim. Você foi embora na hora certa. Arranjou lá um emprego razoável, casou. Mas dinheiro? Nunca vi a cor. Quando o pai caiu doente, com as contas do hospital chegando e a mãe trazendo aquelas velhas crentes pra rezar no quarto, aquele cheiro de iodo pela casa... você nem deu as caras. Deixe, minha hora também chega. Eu já te falei que estou te levando pra essa merda de hemodiálise por dever moral – não por você, mas por mim mesmo. A mãe sempre achou que, independente do seu silêncio, irmão era irmão e a gente devia se ajudar. Além do quê, a sua mulher não dá as caras há um tempão. É até engraçado. E seus filhos, cadê?”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Ouvindo aquilo (a serpente falava num tom exasperado e havia um silêncio no ambiente que me permitia ouvi-lo com facilidade), comecei a agarrar a toalha da mesa com a mão, amassando-a de pura angústia. O sujeito com o curativo fumava com certa resignação. Imagem absurda, eu começava a imaginar que a qualquer momento a fumaça do cigarro lhe escaparia pela ferida no pescoço e nem ele nem seu interlocutor perceberiam, só eu. Devo acreditar que essa minha fixação na conversa alheia, por algum processo de transmissão mental, acabou atraindo o olhar do doente para mim. Encarei-o por um tempo, grave, como para dar a entender que aquilo tudo me era sofrível também e que ele podia contar comigo naquele momento penoso. Mas ficou nisso. Ele não buscava a simpatia de um estranho. Já aguardava aquele discurso, já o vinha escutando há anos na cabeça, imaginava todos os argumentos de que seu irmão lançaria mão. E aceitou tudo calado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Fiquei então me distraindo com a foto aérea de Rimini na parede à minha frente. Tentava distinguir uma pessoinha qualquer lá embaixo, insignificante e que já estivesse provavelmente morta hoje em dia, enterrada no cemitério municipal. Lembrei-me de uma frase de uma crônica do Braga, que dizia: “e me sentia como aquele que se vê nos cartões postais, de longe, dobrando uma esquina.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Pensando nisso, e comendo o nhoque, de repente a vida e o olhar daquele garçom byroniano pareceram mais sólidos e tangíveis; não via mais tanta graça no seu tipo e começava a entender que nada era tão contingente assim a partir do momento em que, voluntariamente ou não, penetramos na vida alheia, nas suas reentrâncias, suas vicissitudes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Quando fui pagar a conta junto a seu Guido, ele desfiou um discurso que, a despeito de parecer decorado, automatizado (talvez idéia de algum de seus filhos para dar um aspecto foclórico ao lugar), trazia em si os possíveis motivos de algumas de suas rugas: “Lutei na guerra pela Itália. Depois vim para o Brasil e só voltei uma vez para rever minha família lá. Quando saí de lá, a gente nem era campeão e hoje já é tetra, né?” E riu dando uma olhada para um ponto-de-fuga imaginário que, deduzi, estava no ângulo onde a parede e o teto amarelecido se encontravam.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-115473477382601670?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115473477382601670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115473477382601670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/08/na-cantina.html' title='Na cantina'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-115457317910575953</id><published>2006-08-02T19:36:00.000-07:00</published><updated>2006-08-04T16:36:12.786-07:00</updated><title type='text'>Numerologia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Está abandonado à matemática do improvável enquanto passam por ele cabeças bem educadas, balançando ao sabor da conveniência um polido desconsolo: “coitado dele”. Sua calculadora mental funciona frenética tentando equacionar um solução que, para sua já morna esperança, se acha perdida num fundo de memória. Vez ou outra, emergindo desse patético exercício de contas, tentando reascender uma potência possível dentro de si, tenta dizer aos que ali o surpreendem: veja, ainda há uma possibilidade; por menor que seja, há. Mas é em debalde; ele tem se sentido como naqueles sonhos em que se tenta correr mas o peso das pernas é tal que não se sai do lugar. E começa então a lembrar aquele ditado que avisa: o pior dos nossos problemas é que ninguém tem nada com isso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Seria preciso uma crença numa divindade que derramasse sobre os magros números de que dispõe potências que os elevassem a grandezas muito maiores, que os convertessem de quase-nulidades que eram em carne numérica, túrgida, cheia da substância vital. De onde, esse ser? Ele, que o tornou há muito proscrito da sua vida. Ele, que sempre creu que o jogo de possibilidades estivesse restrito a esse mundo tangível que vemos, que não admite a existência de um Deus que baixará aqui para solucionar a numérica caótica de tudo quanto há, vê-se agora tentando materializá-lo – que viesse socorrê-lo, ainda que sobre o signo e nome da palavra sorte. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Porque o pior ateu é aquele que transfigurou a imagem de Deus no conceito do fortuito, da contingência – em que a dicotomia bem x mal do cristianismo foi substituída pelo jogo simples de sorte x azar. Ele é um desses. E o mais trágico desses ateus é que eles vêem constantemente a balança pender para o lado do azar; eles se sentem perseguidos pelo peso inumano da falta de sorte. Pensam em culpar Deus e aí – ironia do destino – notam que, por não lhe crerem a existência não podem dizer que este os esteja perseguindo. Por que os perseguiria se não existe?
Abandonado assim à sua angústia, tenta mostrar a quem se interessa saber de seus cálculos o quanto lhe falta para alcançar o mínimo e daí obter a tão desejada conquista. Tenta expor, por via das probabilidades, das somas, das subtrações, quanto lhe é possível alcançar. Mas eles não fazem grande esforço pra decifrar tudo isso. Um conhecido lhe atribuiu até uma neurose porque ele estaria se preocupando com coisas muito abstratas, que fugiam ao seu controle e à sua compreensão; que esse exercício estéril de álgebra não lhe traria senão sofrimento e mais sofrimento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Mas não é possível. Abstrato? É totalmente factível. Veja: do que precisa é uma certa indulgência daqueles que vão corrigir-lhe a prova. Precisa de no mínimo 5 pontos. Mas tão difíceis 5 pontos! Já até conta com a mão de ferro do corretor lançando uma nota mínima, eliminando-o de um futuro cheio de possibilidades boas. E isso não é abstrato! 5 pontos não são 5 universos paralelos, 5 amores no prazo de uma vida, 5 vezes um raio caindo num mesmo lugar, 5 partos de gêmeos siameses numa mesma semana num hospital em Kuala Lampur. Mas, ainda assim, para o sujeito que lhe deu o conselho, era uma preocupação abstrata de sua parte. Esse, o que quis se aprofundar mais no seu drama. Os outros só lamentaram. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Daí que a pretensa frieza dos números acoberta toda uma possibilidade de dramas, paixões, sofrimentos, etc., etc. Nada é tão objetivo se quem encara os algarismos é um ser humano – nada. Um sujeito chegou mesmo a me provar por a + b que 2 +2 = 5. Ironia do destino: lanço aqui esse exemplo esdrúxulo e percebo que são exatos 5 pontos de que ele precisa. Sempre poderá argumentar então aos examinadores que, caso tire 2 pontos em 2 questões, sua nota real é 4 e não 5. Estaria aprovado! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Como se vê, mesmo eu começo a transformar o drama alheio numa trama de opereta. A verdade é uma só: a objetividade não está nos números mas na indiferença das pessoas; essa sim nos assusta por sua geometria cheia de arestas e que – certeza abominável –  não se prova, mas simplesmente é, como um teorema. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-115457317910575953?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115457317910575953'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115457317910575953'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/08/numerologia_02.html' title='Numerologia'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-115436685583399887</id><published>2006-07-31T10:15:00.000-07:00</published><updated>2006-08-02T19:18:52.496-07:00</updated><title type='text'>A ciência do rame-rame.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Há 48 anos funciona no centro da cidade um restaurante italiano de que (e a cujos pratos) nunca soube. Passava ali freqüentemente. Era o caso de me questionar como nunca notara a fachada antes. 48 anos ali. Vetusta, imemorial, o mesmo nome, a mesma porta de vidro e no entanto...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Só quando fui convidado a ir lá – quando fui informado de que lá funcionava uma cantina – é que ela brotou para mim do nada, como num processo de "abiogênese cognitiva" (não precisa procurar; esse termo não está na enciclopédia; inventei agora, como que por abiogênese cognitiva mesmo). Mas foi assim mesmo: nasceu do chão. Era como se tivesse sido expelida do imo da terra aquela cantina italiana. E, ainda assim, quando cheguei lá, notei claramente que o “parto” não se havia completado, pois que o restaurante estava localizado abaixo da linha do asfalto, numa espécie de porão. Entrando lá, apazigüei-me: “Bem, isso aqui é praticamente um subterrâneo – está mais pra uma estação de metrô – não é de me admirar que nunca tenha notado antes.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Mas a verdade é que esse relapso, essa minha desconexão do mundo, não vem de hoje. Eu digo para mim mesmo que se não fosse por minha mãe eu estaria vivendo, em relação a uma série de coisas, numa idade pré-histórica, adorando monólitos e fazendo a dança da chuva.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Veja: eu moro há anos em Goiânia e demorei para perceber por que sempre acordava no meio da noite com a boca seca, sedento, no mês de agosto. Para mim era algo que se operava conforme uma alquimia e, na verdade, só depois de explicado o fenômeno é que pude perceber que ele ocorria invariavelmente no mês de agosto. “Agosto é o mês mais seco do ano” disse minha mãe, fleumática. Voilà. Era uma obviedade tão eloqüente, e que me falava aos sentidos há tantos anos (mas que nunca percebera), que fiquei aturdido por uns bons minutos sentindo aquela mesma sensação de quando vi brotar diante de mim a cantina italiana.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
E essa espécie de animismo em que vivo - criando sistemas de crença totalmente obsoletos por desconhecer os reais mecanismos das mínimas coisas (ou não tão mínimas assim) - é paulatinamente destruído seja por minha mãe, meu pai ou um outro amigo mais experimentado. Por exemplo, nos trâmites burocráticos. Uma certidão negativa a retirar num cartório X, renegociar a anuidade do cartão de crédito que veio muito cara, requerer um alvará tal, uma licença assim... É o tipo de coisa que me deixa um tanto deslocado; arrancando-me de um passado ancestral e primitivo para um presente chão e cheio de complexidades às quais não fui introduzido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Aliás, sempre tive essa espécie de cumplicidade com o passado, principalmente aquele anterior a mim – que, por ter descortinado fatos que não pude presenciar, me soa bem atraente. É algo ambíguo porque na mesma medida em que atrai afoga - o canto da sereia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
A imersão naquele subterrâneo do centro da cidade (talvez mesmo afogamento) deu-me uma certa calma, permitindo que eu esquecesse temporariamente que era preciso, o quanto antes, saber da variação do preço da gasolina, que a conta do telefone vence dia 27 e não dia 30, que para enxaqueca se toma analgésico em vez de anti-gripal e todo esse conhecimento mundano e diário, deicida das minhas crenças caducas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Entremos na cantina...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-115436685583399887?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115436685583399887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115436685583399887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/07/cincia-do-rame-rame.html' title='A ciência do rame-rame.'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-115016511135003629</id><published>2006-06-12T19:16:00.000-07:00</published><updated>2006-06-12T19:22:01.153-07:00</updated><title type='text'>Sempre às Segundas</title><content type='html'>"A Segunda é um Domingo sem igrejas." (Barreto)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-115016511135003629?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115016511135003629'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/115016511135003629'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/06/sempre-s-segundas.html' title='Sempre às Segundas'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-114991031041725988</id><published>2006-06-09T20:27:00.000-07:00</published><updated>2006-06-09T20:38:07.456-07:00</updated><title type='text'>Vai o mundo perdendo boas personagens</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não há como negar que hoje boa parte da nossa espontaneidade está relegada a uma porção ínfima do nosso proceder. Há uma cartilha de modos pairando por aí. Nem falo tanto dos bons modos, porque esses é essencial que sejam preservados e transmitidos mesmo. Falo dos modos num sentido amplo; me refiro a uma gama ampla de comportamentos, desde os mais banais aos mais complexos. Vou dar um exemplo de um gaiato que deu um chapeuzinho nessas formas engessadas: o político da Grécia Antiga Alcibíades. Tendo o pronto ganhado um belo cão de presente, resolveu podar-lhe o rabo. A opinião pública ateniense ficou sem entender aquela atitude sem pé nem cabeça. Se belo o animal, por que arrancar-lhe a cauda? A resposta foi confessada por Alcibíades a um grupo de amigos: "Enquanto os Atenienses estiverem entretidos a falar do meu cão, não falarão mal de mim”. Um maroto, hein, senhores? O sujeito deu o pulo do gato (ou do cão?), burlou um código, aprontou um chiste de grande monta. Quebrou o automatismo da moçada de Atenas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Eu sinto falta disso. Pequenas transgressões que desarmem o espírito burguês, a emergência das formas prontas. Um outro exemplo: estando eu numa festa e me vendo na obrigação de interagir com as pessoas ali, comecei a conversar com uma pequena, uma pequena simpática, até. Como nós estávamos num ambiente aberto e era junho – mês que se convencionou chamar de inverno em Goiânia – ela me queixou que sentia frio nas pernas. Usava uma saia que lhe batia nos joelhos. Para tentar compartilhar da dor dela, disse: “Sabe, eu também pensei em vir de saia, mas com esse frio não quis me arriscar.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Em verdade eu me arrisquei, até demais. Como lançar uma blague dessas pra uma menina da pequena-burguesia, desprovida de qualquer percepção de ironia, senso de humor? (Você argumenta, e com razão, que ela pode e deve mesmo ter senso de humor; só não coaduna com o meu. De fato. Mas é aquele humor careta, que bate ponto no expediente. Modéstia à parte, achei minha tirada no mínimo espirituosa.) Mas eu disse que me arrisquei porque ela não entendeu que se tratava de uma piada; ficou me olhando (“Como assim, você usar saia?”); processou e deu uma risada sem graça, pálida. Dali em diante ela me olhava com se eu fosse um ser microscópico que se apanha pela pinça.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Por essas e outras calculemos: vai o mundo perdendo boas personagens. Quantos? Uns milhares por dia; quem sabe mais? Se o automatismo venceu a espontaneidade, o “savoir-vivre”; se quase ninguém tira mais um coelho da cartola por dia; a que se reduzem então as formas do viver hoje? A uma massa de parvos sem nenhuma sagacidade, a uma maioria obtusa. Vai mesmo o mundo perdendo boas personagens com isso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
É como diz aquele poema do Alberto Caiero: ”Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo/ Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu./ Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda”. É mais ou menos por aí. Quer dizer, eu citei um exemplo meu acima e um exemplo até esdrúxulo, você há de concordar. Não é que eu esteja querendo me filiar aos outros habitantes da mansarda do Fernando Pessoa, edificar minha dignidade de outsider. Nunca me lancei à filosofia nem quis prodigalizar amor à toda a humanidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
A intenção é falar desses grandes personagens que escapam ao mundo. Deus ali sentado nos páramos do céu chora a perda de tão grandes personagens, originais, que se recalcam à mansarda porque não encontram lugar no mundo. Volta então o Criador, entediado, a assistir a novela do cotidiano. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Vejamos o caso de um amigo. Chamemo-lo de Pigmalião para não denunciarmos o pobre. Ele conheceu essa mulher, que aos olhos dele era sublime, de dotes físicos caprichados; um talhe helênico, enfim. Como ele já atingira aquele estágio da vida em que se começa a desconfiar de que seu modus vivendis não é o da maioria das pessoas e que os outros o olham como um outsider, o simples fato da pequena em questão entabular conversa com ele, ali na fila do cinema (sim, estavam no cinema), bastou para que à beleza de fora da moça se juntasse a de dentro, formando aos olhos de Pigmalião uma unidade perfeita e indivisível, o átomo de Demócrito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Exposto assim, nessas linhas medíocres, pode parecer que Pigmalião era um romântico incurável. Nem tanto, nem tanto. Digamos que ele era um idealista, sim. A palavra cai-lhe melhor. Era-lhe fundamental esse amálgama do físico e do, digamos, espiritual. E o fiel da balança não pesava para nenhum dos dois lados, dando a ambos igual importância. Donde se conclui que um corpo bem moldado, uma curva de boca irrepreensível, seios firmes eram peças fundamentais no quebra cabeça que meu amigo criara para si da mulher ideal. Ele até tentou argumentar que mesmo aí, na aparência, buscava um ideal de beleza como o dos gregos, para quem o belo também é bom, espiritualmente mais elevado. Pura bobagem, pura bobagem. Meu amigo era um mundano como qualquer outro homem, por mais idealista que fosse. Quem não aprende as regras mínimas do mundo vivendo nele ao cabo de alguns anos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Mas já passa da hora. Retomarei depois a comédia de erros de Pigmalião, quando ele conhece a moça na fila de cinema.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-114991031041725988?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114991031041725988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114991031041725988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/06/vai-o-mundo-perdendo-boas-personagens.html' title='Vai o mundo perdendo boas personagens'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-114986541564914391</id><published>2006-06-09T08:01:00.000-07:00</published><updated>2006-06-09T08:03:41.020-07:00</updated><title type='text'>Em ritmo de Copa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;"O empate é o resultado mais reacionário do futebol." (Barreto)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-114986541564914391?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114986541564914391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114986541564914391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/06/em-ritmo-de-copa.html' title='Em ritmo de Copa'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-114961380441376988</id><published>2006-06-06T09:49:00.000-07:00</published><updated>2006-06-07T18:51:38.440-07:00</updated><title type='text'>João Saldanha e os flibusteiros.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Assim se pronunciou o grande jornalista sobre a campanha da seleção da casa no Mundial da Inglaterra, em 66: "Os caras pilharam o mundo inteiro; você acha que eles iam perder a Copa em casa?" &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Grande Saldanha.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-114961380441376988?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114961380441376988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114961380441376988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/06/joo-saldanha-e-os-flibusteiros.html' title='João Saldanha e os flibusteiros.'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-114945469507765218</id><published>2006-06-04T13:55:00.000-07:00</published><updated>2006-06-04T14:19:15.893-07:00</updated><title type='text'>Capítulo II - Onde nosso herói lança sua lupa sobre o homem no bar.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu acabei regredindo no texto anterior. Discorri sobre a revelação do sujeito que não tocava instrumento nenhum, mas o que queria relatar mesmo era aquela vez em que ele pairava ali no bar, atemporal. Era Cristo caminhando sobre a água, como naquela passagem bíblica (para usar uma imagem de alta voltagem dramática). De fato ele estava sozinho no bar. Sorvia uns goles modestos; assim, era como se não esgotasse tão breve mesmo a fonte moral de onde ele tirasse forças pra permanecer ali em estado de plena solidão.
&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Sair sozinho é uma tarefa árdua. O mundo espera que você que seja um “social sunshine”, como disse um amigo. E estar assim à margem nunca é “de bom tom”. O próprio solitário experimenta em si essa reprovação. Penitencia-se a cada dez segundos e o tempo dilata-se à maneira de uma hemorragia. Ele tenta conter a vazão e o que o incomoda não é propriamente a matéria que escapa – o tempo – mas mesmo a persistência com que ela escorre. “Não acaba nunca? Vai ser sempre assim?” – indaga-se o homem. Já que não se controla esse fluxo, sorva-se a bebida, que de mais a mais é uma tentativa de controlar essa entropia toda.
&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Ainda que ele não fumasse, é sempre outro recurso que vale a pena a ser empreendido nessas horas. Ali, projetando fumaça como uma usina frenética, o homem no balcão do bar pode contemplar em paz o que se passa. “Não estou só. O cigarro é um baita companheiro.”
&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas essas são meras especulações, quem sabe? Na verdade ele se portava com a naturalidade dos experimentados. Flutuava vez ou outra pelas mesas. Algum conhecido se aproximava. Um diálogo mínimo se fazia. E depois o conhecido voltava pra sua mesa. Também algum garçom vinha, fazia um comentário. Mas o trabalho sempre impedia uma conversa mais demorada.
&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Você certamente já viu tipos como esse de que falei. O sujeito, tentando se manter na crista da onda social, acaba por se portar como o gerente do bar. Desenrola para si e para toda a indiferente assistência uma pequena farsa. É como se dissesse: “Bebam todos vocês. Eu – eu estou aqui para garantir que nada vá sair dos eixos. Eu sou o gerente”.
&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
O mais trágico é se o gerente de verdade chega ao bar no meio da peça que o sujeito desempenha. Aí então, reduzido na sua fantasiosa hierarquia, ela passa a se portar como um sub-gerente. Aproxima-se do dono, troca uma confidência como quem diz “Aqui, vai tudo bem.” (Invariavelmente o gerente do ponto já conhece a figura. É como os enfermeiros de clínica psiquiatra que lidam todo dia com um Napoleão.)
&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Esforço desumano faz o nosso homem porque não encontra uma alma ali que não esteja com muita pressa pra escutá-lo. O gerente platônico de bar – esse cujo relato fizemos – é mais uma dentre tantas vítimas de um estilo de vida meio reinante hoje em dia: encaram-se os relacionamentos como “networks” e o homem passa a ser um meio, não um fim. “Como posso tirar proveito dessa pessoa? Como posso pelo menos não perder meu tempo com ela?” Assim pensam os adeptos da “network” e a vida social vai se transformando numa edição piorada da corte de Versalhes, onde cortesão, encarando a sociabilidade como jogo e o afeto como regra a ser burlada, enxerga o outro como peça de xadrez.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-114945469507765218?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114945469507765218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114945469507765218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/06/captulo-ii-onde-nosso-heri-lana-sua.html' title='Capítulo II - Onde nosso herói lança sua lupa sobre o homem no bar.'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28728742.post-114938861942100258</id><published>2006-06-03T19:33:00.001-07:00</published><updated>2006-06-03T19:48:38.686-07:00</updated><title type='text'>Capítulo I - Onde nosso herói se lança à empresa de manter um blog (e o caso de um sujeito no bar).</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Se não vejamos : eu criei esse blog há mais de uma semana. Hoje vai ser a primeira tentativa de postar algo aqui. Se for bem sucedida, você vai estar lendo essas linhas (supondo que haja leitores para tanto). Quer dizer, não é tão complicado assim criar um blog. O diabo é mantê-lo. Bem, o diabo é criá-lo também – o que já se configura como um verdadeiro inferno.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Venho ruminando a idéia de um diário virtual há uns bons anos. Comecei, obviamente, publicitário que sou de formação, pelo título. A princípio ia se chamar “Necrológio dos Pavões”. É de uma plasticidade tremenda, hein? Não significa propriamente nada, mas, ao mesmo tempo, muito. O pavão é o símbolo-mor da exuberância, o pavão viceja. No entanto, padece do mal de morrer. Quem irá escrever seu necrológio?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Mas acabei achando o título um tanto afetado, uma lance meio décadent. Há seu charme – como disse, há uma plasticidade na coisa – mas eu achava necessário assentar essa poeira, esse ímpeto inicial de despejar aqui toda a minha possível retórica. Daí, talvez, esse intervalo da idéia à palavra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Nunca é demais perguntar se, enfim, é chegada a hora de escrever e se seria agora o momento inexcedível. (Parênteses fundamentais: essa arenga toda sobre escrever ou não esse blog pode estar dando a impressão a você – e talvez a mim mesmo – de que eu tenha fumos estéticos, que eu planeje uma obra de valor literário. Enfim, saiba você – e você também, Vinícius – que não se trata disso. Isso aqui vai tratar de amenidades. Ponto. Minhas, de outrem; mas sempre amenidades. Reais, ficcionais, hiper-reais; mas sempre frugalidades. É que eu acho importante tentar olhar a coisa por esse lado: afinal por que escrever isso e quando fazê-lo.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Mas aos fatos: a idéia tomou corpo no dia do meu aniversário. Saí com a família, fomos a um bar, etc., etc. Mas isso não tem a menor importância. Eu queria chegar nisso: a figura do sujeito esquerdo, do outsider. Segundo o poeta Paulo Mendes Campos, os bares morrem numa quarta-feira. Era terça meu aniversário, mas já havia naquele bar um sujeito velando a morte próxima. Era uma autarquia afetiva, estava sozinho. Enfim, ele, a caipirinha e um garçom bissexto que vez ou outra puxava assunto com ele. Era da casa. A bem da verdade, eu já havia conversado com ele uma vez. Era engenheiro de som, cuidava da parafernália toda quando tinha apresentação ali. Mas o que mais me comoveu nele foi a confissão que me fez, quando proseamos uma certa feita: “Não toco nada, rapaz. Já tentei aprender violão: um fiasco. Bom, agora vou de saxofone. Vamos ver onde isso vai parar.” E esfregava as mãozinhas, excitado. Deus há de reservar um cantinho no céu para os vizinhos do sujeito, companheiros involuntários da viagem dele, obrigados a ver “onde isso vai parar.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;
Acho que aquela admissão de falta de talento me deixou comovido porque na minha ingênua concepção todo engenheiro de som sabia tocar alguma coisa. Quer dizer, no mínimo um berimbau o sujeito deveria manusear, como quem come um algodão doce. Não, aquele ali não tocava nada. Mais um mito que caía. Viver é isso aí, enterrar um deus por dia.

(O recurso é safado mas lá vai: continua...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28728742-114938861942100258?l=piscinadebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114938861942100258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28728742/posts/default/114938861942100258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://piscinadebolso.blogspot.com/2006/06/captulo-i-onde-nosso-heri-se-lana_03.html' title='Capítulo I - Onde nosso herói se lança à empresa de manter um blog (e o caso de um sujeito no bar).'/><author><name>Blog da Blague</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03955434205664943979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
